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esse boe é um galado

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Sneak peek de Kingdom of Ash

acotarwikibr:

Tradução: @acotarwikibr / Fonte: Waterstones

O Príncipe

Ele estava procurando por ela desde o momento em que ela foi tirada dele.

Sua parceira.

Ele mal se lembrava de seu próprio nome. E só se lembrava dele porque seus três companheiros o falavam enquanto procuravam por ela através de mares violentos e escuros, através de florestas antigas e adormecidas, sobre montanhas varridas pela tempestade já enterradas na neve.

Ele parou o suficiente para alimentar seu corpo e permitir que seus companheiros tivessem algumas horas de sono. Se não fosse por eles, ele teria voado para longe, voado por toda parte.

Mas ele precisaria da força de suas lâminas e magia, precisaria de sua astúcia e sabedoria antes que isso acabasse.

Antes que ele enfrentasse a rainha das trevas que havia despedaçado seu íntimo, roubando sua parceira muito antes de ela ter sido trancada em um caixão de ferro. E depois que ele terminasse com ela, depois disso, então ele enfrentaria os próprios deuses de sangue frio, determinados a destruir o que poderia restar de sua parceira.

Então, ele ficou com seus companheiros, mesmo com o passar dos dias. Depois, as semanas.

Depois, meses.

Mesmo assim, ele procurava. Ainda assim, ele procurava por ela em todas as estradas empoeiradas e esquecidas.

E, às vezes, ele falava ao longo do vínculo entre eles, enviando sua alma ao vento para onde quer que ela fosse mantida em cativeiro, sepultada.

Eu vou te encontrar.

A Princesa

O ferro a sufocava. Ele havia apagado o fogo em suas veias, tão certo como se as chamas tivessem sido regadas.

Ela podia ouvir a água, mesmo na caixa de ferro, mesmo com a máscara de ferro e correntes adornando-a como fitas de seda. O rugido; a interminável correria de água sobre pedra. Enchia as lacunas entre ela gritando.

Um pedaço de ilha no coração de um rio coberto de névoa, pouco mais que uma laje lisa de rocha entre as corredeiras e as quedas. É onde eles colocaram ela. Guardaram ela. Em um templo de pedra construído por algum deus esquecido.

Como se ela provavelmente seria esquecida. Era melhor que a alternativa: ser lembrada por seu completo fracasso. Se houvesse alguém para se lembrar dela. Se houvesse alguém no fim.

Ela não permitiria isso. Esse fracasso

Ela não lhes contaria o que desejavam saber.

Não importa quantas vezes seus gritos afogassem o rio caudaloso. Não importa quantas vezes o estalo de seus ossos se partisse pelas corredeiras.

Ela tentou acompanhar os dias.

Mas ela não sabia quanto tempo eles a mantiveram naquela caixa de ferro. Por quanto tempo eles a forçaram a dormir, embalada no esquecimento pela fumaça doce que eles despejaram enquanto viajavam para cá. Para esta ilha, este templo da dor.

Ela não sabia quanto tempo as lacunas duravam entre ela gritando e acordando. Entre a dor terminando e começando de novo.

Dias, meses, anos — eles sangraram juntos, conforme seu próprio sangue muitas vezes deslizava sobre o chão de pedra e no próprio rio.

Uma princesa que viveria mil anos. Mais do que isso.

Esse tinha sido seu presente. Agora era sua maldição.

Outra maldição para suportar, tão pesada quanto a que foi colocada sobre ela muito antes de seu nascimento. Para se sacrificar para corrigir um erro antigo. Para pagar a dívida de outro aos deuses que encontraram o mundo deles, ficaram presos nele. E então o governaram.

Ela não sentiu a mão quente da deusa que a abençoou e a condenou com um poder tão terrível. Ela se perguntou se aquela deusa da luz e da chama sequer se importava que ela agora estivesse presa dentro da caixa de ferro — ou se a imortal tivesse transferido suas atenções para outro. Para o rei que poderia se oferecer em seu lugar e entregar sua vida, poupar seu mundo.

Os deuses não se importavam com quem pagaria a dívida. Então, ela sabia que eles não iriam buscá-la, salvá-la. Logo, ela não se incomodou em rezar para eles.

Mas ela ainda disse a si mesma a história, ainda às vezes imaginava que o rio cantava para ela. Que a escuridão que vivia dentro do caixão selado também a cantava para ela.

Era uma vez, em uma terra há muito queimada até as cinzas, vivia uma jovem princesa que amava seu reino…

Lá embaixo ela mergulharia profundamente naquela escuridão, no mar de chamas. Abaixo tão fundo que quando o chicote rachava, quando o osso se separava, ela às vezes não o sentia.

Na maioria das vezes ela o fazia.

Foi durante aquelas horas infinitas que ela fixou seu olhar em seu companheiro.

Não o caçador da rainha, que consegue tirar a dor como um músico persuadindo uma melodia de um instrumento. Mas o enorme lobo branco, acorrentado por ligaduras invisíveis. Forçado a testemunhar isso.

Houve alguns dias em que ela não aguentava olhar para o lobo. Quando ela chegava tão perto, perto demais, de quebrar. E apenas a história a impedia de fazer isso.

Era uma vez, em uma terra há muito queimada até as cinzas, vivia uma jovem princesa que amava seu reino…

Palavras que ela falara para um príncipe. Uma vez… há muito tempo.

Um príncipe de gelo e vento. Um príncipe que tinha sido dela e ela dele. Muito antes de o vínculo entre suas almas se tornar conhecido por eles.

Foi sobre ele que a tarefa de proteger aquele reino outrora glorioso caiu agora.

O príncipe cujo perfume foi beijado com pinho e neve, o cheiro daquele reino que ela amara com seu coração de fogo.

Mesmo quando a rainha das trevas presidia os cuidados do caçador, a princesa pensava nele. Mantido em sua memória como se fosse uma pedra no rio caudaloso.

A rainha das trevas com um sorriso de aranha tentou empunhá-lo contra ela. Nas teias de obsidiana que ela tecia, nas ilusões e nos sonhos que tecia na culminação de cada ponto de ruptura, a rainha tentava torcer a lembrança dele como uma chave em sua mente.

Elas estavam borrando. As mentiras e verdades e memórias. O sono e a escuridão no caixão de ferro. Os dias ligados ao altar de pedra no centro da sala, ou pendurados em um gancho no teto, ou pendurados entre correntes ancoradas na parede de pedra. Tudo estava começando a borrar, como tinta na água.

Então, ela disse a si mesma a história. A escuridão e a chama profunda dentro dela também sussurravam, e ela cantou de volta para eles. Trancada naquele caixão escondido em uma ilha dentro do coração de um rio, a princesa recitou a história, repetidas vezes, e permitiu que eles soltassem uma eternidade de dor em seu corpo.

Era uma vez, em uma terra há muito queimada até as cinzas, vivia uma jovem princesa que amava seu reino…

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